Quatorze anos em doze terabytes
Um arquivo que você não consegue atravessar deixou de ser um arquivo.

Parei de contar em setecentos e quarenta e um mil arquivos. Doze terabytes, quatorze anos de trabalho, e a suspeita de que aquilo tinha deixado de ser um acervo em algum momento sem me avisar.
Não foi desleixo, foi acúmulo. Cada projeto entregue virou uma pasta, cada pasta ganhou um nome que fazia sentido naquela semana, cada disco novo virou uma cópia do anterior por segurança. Ninguém acorda um dia e decide bagunçar quatorze anos. Você só continua trabalhando, e a desordem é o rastro disso.
O que me obrigou a encarar foi uma imagem específica que levei quase uma hora para achar. Uma hora procurando uma foto minha, no meu arquivo, feita por mim. Um arquivo que você não consegue atravessar deixou de ser um arquivo. É um depósito.
A regra que me impus foi desconfortável: nada seria apagado até que tudo estivesse no lugar certo. A tentação é a oposta. Você vê a mesma sessão repetida em três lugares e quer limpar. Só que enquanto está bagunçado você não sabe qual das três tem o retoque final. Apagar antes de organizar é apostar, e eu já perdi coisa assim.
O que eu não esperava foi o que apareceu no caminho. Minha avó, em fotos que eu tinha esquecido que existiam. Sessões que nunca entraram em portfólio porque na época achei que não estavam prontas, e hoje estão entre as melhores coisas que fiz. Um trabalho de 2013 melhor do que eu lembrava, e um de 2016 pior do que eu andava vendendo.
No fim o acervo não ficou menor. Ficou atravessável. E organizar quatorze anos não me deixou mais produtivo, me deixou mais honesto.
O acervo é a memória do ofício. Se ela vira depósito, o ofício também vira.