Marino Sallowicz S monogramMarino Sallowicz
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A cor vem da matéria

Eu não escolho uma cor. Encontro o que o material faz com a luz.

A cor vem da matéria

Toda temporada alguém anuncia a cor do ano, e toda temporada eu tenho a mesma reação, uma mistura de curiosidade e desconfiança. Curiosidade porque as escolhas costumam ser inteligentes. Desconfiança porque a ideia por trás delas é que cor seja decisão de catálogo.

No meu trabalho não é. Cor não é uma escolha que eu faço antes. É o que aparece quando a luz encontra um material, e o meu papel é reconhecer e não atrapalhar.

Um esmalte vermelho não é vermelho. É uma superfície fazendo algo específico com a luz, deixando entrar um pouco, segurando, devolvendo mais devagar e mais quente do que entrou. Acenda de outro jeito e o mesmo vermelho vira outro vermelho, e nenhum dos dois é mentira. O vidro não tem cor nenhuma e produz espectro inteiro quando a luz atravessa numa angulação feliz, um arco que nenhum degradê reproduz com honestidade porque ali existe física, não gradiente. O metal também não tem cor. Ele tem a cor da sala.

Aprendi isso da forma mais dura debaixo d'água. A vinte metros você não escolhe nada. A água já decidiu, comeu o vermelho, empurrou tudo para o azul, e resta entender a regra e trabalhar dentro dela.

Daí veio o princípio que eu carrego. A cor vem da matéria. Ela não é aplicada, é revelada.

Tem uma consequência prática nisso, e é a razão de a minha marca ser cinza. Se o material fornece a cor, tudo em volta precisa ficar quieto. Não é minimalismo por estética. É para não competir com a única cor que interessa, que é a que está acontecendo dentro da imagem.

Por isso eu não tenho cor de marca. A cor não é minha. É do vidro, do esmalte, do metal e da água.